Referendo do Desarmamento

Desarmamento

Sim é a Resposta (vote SIM)


Luiz Soares

A boa notícia sobre a diminuição de mortes provocadas por armas de fogo no país alcançada em 2004, com 8,2% menos vítimas em relação ao resultado do ano anterior - sobretudo em Mato Grosso, onde a queda foi de 20,6%, segundo pesquisa recentemente divulgada pela Secretaria de Vigilância em Saúde (Ministério da Saúde) -, deve ser o fôlego que a nação precisava para, no dia 23 de outubro, ir às urnas. A despeito da lama política em que o país se encontra submerso, a decisão que os poucos mais de 122 milhões de eleitores terão que tomar nesse dia não tem nada a ver com a escolha de futuros governantes e legisladores. A situação é, no entanto, tão primordial quanto, pois a população decidirá sobre o possível fim da comercialização de armas de fogo no Brasil.

A pergunta, que apenas espera como resposta um sim ou um não, tem simples formulação: 'O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?' Mas a resposta, não tão simples como parece, pode ser um SIM, que a médio e longo prazos, deve pôr freio a atos de extrema violência sem precedente, ou um NÃO, que tratará de dar continuidade a toda sorte de crimes provocados por uma arma em punho, inclusive a interrupção de vidas de centenas e milhares de inocentes.

Para se ter uma idéia, em 2003, 39.325 pessoas foram mortas por armas de fogo no país, o que equivale a 108 pessoas/dia. No ano passado, esse número foi de 36.091 mortos. Apesar da queda, o total ainda representa uma vítima fatal a cada 15 minutos. De acordo com estudos, o Brasil tem 2,8% da população mundial, mas responde por 7% dos homicídios com arma de fogo em todo o mundo, até mesmo porque este é o país em que mais pessoas morrem por arma de fogo, superando, inclusive, nações que estão sob constante guerrilha, como Colômbia, África do Sul e El Salvador.

O mais curioso é que, ao contrário do que a maioria pensa, boa parte dos homicídios acontece durante momentos de desentendimentos e agressões entre parentes ou conhecidos, pessoas que não têm passagem pela polícia, que não são bandidos. Geralmente, as mortes se dão depois de brigas em boates, bares, trânsito, torcidas de futebol ou mesmo em casa, quando agressões físicas são substituídas por tiros. Informações da polícia de São Paulo revelam ainda que, só na zona sul da cidade, 46% dos homicídios têm vítima e autor que não se conheciam. E nesse universo, infelizmente, os jovens figuram com destaque, como as principais vítimas. Segundo o Ministério da Saúde, entre 92 e 2004, o maior número de mortos por arma de fogo foi de pessoas entre 10 e 29 anos.

Ainda quando a bala disparada não leva a vítima à morte, o ônus da 'tentativa' também pertence à população, já que na maioria dos casos os recursos a serem empregados na recuperação do paciente são do Sistema Único de Saúde. Também de acordo com Ministério da Saúde, o SUS teve um custo de R$ 18,5 milhões com atendimento de feridos por armas de fogo no ano passado.

Este montante, que poderia ter sido utilizado na melhoria e na ampliação da Atenção Básica, nível de atendimento que deve oferecer resolutividade a pelo menos 70% dos problemas de saúde da população, foi investido no pagamento de cirurgias, hospitais, exames e medicamentos de alto custo, enfim, nos serviços de saúde que devem ser lançados mão apenas em situações drásticas - pacientes terminais, vítimas de acidentes, entre outros casos.

Creio que deixei claro meu posicionamento a respeito do referendo do dia 23 de outubro. Espero que algumas informações oferecidas neste texto possam contribuir para chamar à razão nossa sociedade, pelo menos parte dela, sobre a importância de cada vez menos armas de fogo, e de outros tipos também, circulem em nossas ruas, entre nossos jovens, entre nossas crianças, perpetuando a violência.

Assim sendo, saúde e paz!



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