Tráfico de Drogas

Tráfico de Drogas

Envolvimento dos Bancos


O papel central da "narcoeconomia" no capitalismo contemporâneo se detecta no peso alcançado pela "lavagem do dinheiro" no sistema financeiro. Todos os bancos de envergadura, desde o Boston até o Credit Suisse, participam desta operação. Pelas somas envolvidas, a "lavagem" seria impossível sem a cumplicidade dos banqueiros que intermediam a legalização do dinheiro sujo e a sua conversão em ativos, empresas ou imóveis. Nos últimos anos, os bancos criaram paraísos fiscais nos quais se lava, diariamente e à vista de todos, entre US$ 160 e 400 milhões. Esta associação entre mafiosos e banqueiros se apoia, em última instância, no sigilo bancário — um princípio intocável para o capitalismo — por ser um pilar da propriedade privada, na confidencialidade dos negócios e na livre disponibilidade do capital.

As denúncias de lavagem, a campanha antidroga e as controvérsias sobre a legalização de certos narcóticos, expressam a enorme rivalidade interbancária que existe no negócio da lavagem, especialmente entre o tradicional centro suíço e seus competidores do Caribe, Panamá e Uruguai.

Os lucros produzidos pelo narcotráfico de maneira nenhuma enriquecem os países produtores. Nos EUA, calcula-se em 20 milhões o número de consumidores regulares de drogas, que em 1988 gastaram US$ 150 bilhões. Desse total, entre US$ 5 e US$ 10 bilhões foram os lucros dos cartéis produtores na Colômbia. Mas apenas US$ 1 bilhão foi investido na economia oficial do país. E o restante? Calcula-se que 90% dos lucros do narcotráfico sejam recebidos pelos grandes bancos, por depósitos dos produtores e dos intermediários, e por comissões pela "lavagem" do dinheiro. As medidas tomadas pelas autoridades dos EUA contra as operações bancárias de cumplicidade com os traficantes são risíveis: entre os bancos que sofreram sanções por não terem declarado transações figura o First National Bank of Boston, que expediu para o exterior US$ 1,2 bilhão em notas pequenas. A comissão de 3% paga pelos traficantes (US$ 36 milhões) torna irrisória a multa de US$ 500 mil imposta ao banco. O que se multa, no caso, é a ilegalidade da operação, não a origem criminosa do dinheiro protegido pelo sacrossanto "sigilo bancário".

Eis porque a política dos EUA, que ataca apenas os traficantes diretos, não consegue impedir o crescimento do narcotráfico e dos seus lucros. Ao reduzir parcialmente a oferta, deixando intocado o aparato financeiro, só se consegue "um aumento dos lucros, recapitalizando constantemente as redes de produção e distribuição, a ampliação geográfica da produção e a fixação de um piso mínimo para a cocaína". A repressão da oferta só conseguiu elevar o preço da cocaína pura nos EUA, e pôr em circulação um produto superdegradado para consumo "popular": o mortal crack.

O capital financeiro internacional fica com a parte do leão, o que não impede que os grandes produtores se tornem um fator decisivo na economia de seus países. Na Colômbia, as exportações de cocaína atingem US$ 50 bilhões, três vezes o PNB. Calcula-se que os narcoempresários investem em torno de 45% em propriedades urbanas e rurais, 20% em gado, 15% em comércio e 10% na construção e no lazer. Mas sua atuação é também política. Em 1989, por exemplo, foram reveladas muitas negociações entre representantes do governo e o Cartel de Medelín. A semilegalidade concedida aos narcotraficantes, a sua aliança com a burguesia e o governo, visam os objetivos mais reacionários: os narcotraficantes colombianos aliaram-se aos fazendeiros e às forças de segurança de modo a proteger seus interesses comuns contra os grupos guerrilheiros e contra as crescentes demandas de reforma política e econômica dos setores mais carentes. O resultado desta aliança foi a complementação da ação da polícia com a dos "esquadrões da morte" que, em número de 140, submetem a uma verdadeira tutela terrorista a vida política e social do país.

Na Colômbia, os traficantes estão entrelaçados com a oligarquia tradicional, mediante a compra de terras ou a substituição das culturas agrícolas, o que deu uma saída aos proprietários arruinados pela baixa do preço internacional do café. A desintegração do capitalismo colombiano, golpeado pela crise mundial, faz os traficantes florescerem.

Na Bolívia, a reciclagem narcótica da economia foi diretamente impulsionada pelo Estado militar imposto a partir do final de 1971. O velho narcotráfico boliviano, marginal até então, desenvolveu-se graças a dois novos fatores: generosos créditos da banca estatal e privada (milhões de dólares), subsídios e impunidade pela sua ligação com os organismos de repressão ou pelo apadrinhamento oficial. Em 1976, Kissinger viajou secretamente à Bolívia, oferecendo créditos de US$ 45 milhões para impedir o progresso da cultura de coca. Mas os lucros do tráfico falaram mais alto: os "narcos" chegaram a tomar o poder através do general Garcia Meza.


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